Jacinta Passos

Prosa

A caricatura do nazismo

O “grande ditador”, esse filme humaníssimo que Chaplin realizou, vale mais do que apologia contra o nazismo. É um filme que deve ser visto pelas multidões. Ignorantes e cultos, homens, velhos e crianças, qualquer criatura humana o entende e sai de lá com uma compreensão mais lúcida da realidade de nosso mundo. O homem eterno com as suas grandezas e misérias, seu heroísmo, seus ridículos e suas esperanças. Compreensão do nosso mundo atual, o processo de renovação histórica que se opera dentro dele, elementos em decomposição que condicionaram o maior fenômeno reacionário da história, e elementos puros, forças intactas do mundo de amanhã.

A ambição anormal de Hinkel, erguendo-se sobre as ruínas de pós-guerra, as figuras-símbolo dos seus ministros, os dois ditadores discutindo a invasão de Austerlitz como dois adolescentes exibindo valentias. No meio de toda essa humanidade desumanizada, movem-se as figuras dos simples, símbolos do mundo: oprimidos e sofredores, o barbeiro desmemoriado, o bom velho judeu, o vulto de Hannah, tão puro e tão lindo que, de dentro da miséria do gueto, parece esperar contra toda a esperança. Esses, são seres humanos, os outros são caricaturas.

Somente a caricatura consegue representar com fidelidade tipos como o grande ditador e as personagens que o cercam, tipos de fim de época histórica, espectros de um mundo desaparecido, incoerentes, absurdos, ridículos como moribundos que tentassem resistir à morte. Recriando situações, exagerando os traços marcantes do grande ditador, revelando-o através de sua mímica poderosa, Chaplin nos faz surpreender em sua própria gênese o fenômeno reacionário. Revela o seu conteúdo irracional, todo esse complexo de contingências biopsicológicas, recalques, instintos reprimidos, taras que a humanidade carrega dentro dela e de que dificilmente consegue se libertar. Em qualquer situação, Hinkel seria um antiprogressista, a sua ambição doentia requer um clima próprio para se transformar em tirania. O ambiente de ditadura é preparado, o aparato exterior, gestos, pessoas, coisas, tudo disposto para impressionar, espantar, estarrecer o povo. No meio de tudo isso, o desprezo pela criatura humana, valendo menos que um pára-quedas ou uma armadura de aço.

Há cenas inesquecíveis, pelo ridículo e doloroso, o trágico doendo no fundo das situações mais cômicas. O medo que estarrece o barbeiro desmemoriado, ignorante da nova realidade, pobre diabo envolvido nas malhas de ferro da nova organização. Schultz, fugido da prisão, convoca um grupo de judeus para uma reunião. Um deles seria sacrificado: iria dinamitar o palácio do ditador. Com a sua lógica de bom burguês, Schultz se exclui solene, grave: “Eu estaria disposto mas, como sabem, não poderei ir.” Do meio daquela gente, da lógica natural, do bom-senso do homem do povo, uma pergunta espontânea, quase ingênua, fere o ar como uma lâmina: “Por quê?”

O filme não provoca entusiasmos violentos, nem mesmo na cena final (quer quebrar um pouco do seu ritmo). Quando o barbeiro, substituindo por equivoco o ditador, transmite sua mensagem a todos os que, como ele, vivem oprimidos, a sua ação é mais interior, deixa fortes e fundas ressonâncias. Purifica, torna mais transparente o olhar com que olhamos os homens e as coisas, nossos próprios ridículos. E os ridículos alheios. Liberta interiormente, comunica essa liberdade interior que torna inútil pelo ridículo, não somente o grande ditador mas todas as ditaduras do mundo.

In: Jornal O Imparcial, Salvador, 23 de outubro de 1942, p.2.


Os estudantes e a guerra

O Congresso de Guerra dos Estudantes, que agora se realiza no Rio, vem sendo orientado por um alto sentido patriótico. Vozes autorizadas como a do ministro Capanema, que falou em nome do presidente Vargas, como a do grande general Manuel Rabelo e, recentemente, do comandante Amaral Peixoto, levaram o apoio do Governo e do Exército aos nossos bravos moços estudantes. É o reconhecimento oficial do trabalho patriótico, da coragem e bravura dos estudantes do Brasil, pioneiros da luta contra o fascismo.

Quando se escrever a história do presente momento brasileiro, quando se narrar para as gerações futuras as lutas do povo pela independência da pátria ameaçada pelo fascismo estrangeiro e nacional, haverá, com justiça, um capítulo escrito sobre o papel decisivo desempenhado nessa luta pela mocidade e, principalmente, pela mocidade estudantil,. O estudante brasileiro sempre teve uma tradição de grandeza intelectual e moral, mas de uma grandeza boêmia e desorganizada e desorientada… Os estudantes da atual geração desfizeram essa antiga tradição e demonstraram uma capacidade notável para a ação organizada e eficiente, orientados por uma aguda consciência política.

Foram eles, os estudantes, liderados pelos estudantes baianos, os primeiros que deram o grito de alerta pela unidade interna, contra o trabalho divisionista da quinta-coluna e contra o perigo integralista. Foram eles os primeiros que lançaram o grito de revolta do Brasil quando os fascistas, ajudados pela quinta-coluna nacional, afundaram os nossos navios e mataram os nossos irmãos. Foram eles os primeiros que clamaram pela guerra e anteciparam o grito do povo à declaração de guerra do governo, ao lado das Nações Unidas. Foram eles os primeiros que clamaram pela união nacional em torno da política de guerra do presidentes Vargas, como o único e verdadeiro caminho para a vitória do Brasil contra o fascismo. Foram eles os primeiros que se reuniram em organizações patrióticas para orientar e esclarecer o povo e ajudar o esforço de guerra. Foram eles os primeiros à frente de todas as campanhas patrióticas. E os estudantes vêm realizando todas essas tarefas dentro de um espírito de serenidade, coragem, firmeza e disciplina, que falam bem alto da seriedade de suas convicções.

Hoje, muitos desses estudantes, veteranos da luta contra o fascismo, estão convocados para o serviço militar e vestem a farda do nosso Exército, e se preparam para a luta nos campos de batalha onde a segunda frente dos povos livres exige a participação do Brasil, com a mesma decisão e firmeza com que lutaram nas campanhas civis.

O Congresso que agora se realiza no Rio é mais um passo, e um passo decisivo, na luta do estudante brasileiro. Desse Congresso resultará uma maior unificação das atividades dos estudantes nos vários Estados, uma maior e melhor organização para a mobilização total da massa do estudante brasileiro e de todo o povo brasileiro contra o fascismo. Desse Congresso sairão os estudantes mais esclarecidos, mais aptos para levantarem até o fim a luta pela independência da pátria e liberdade dos povos.

Que eles continuem mais firmes e desassombrados, esses moços cujas atividades políticas revelam uma pureza despida de qualquer interesse individual, esses moços odiados somente pelos que têm compromissos com o fascismo, esses moços amados pelo povo, honra e orgulho do Brasil, que possui uma tão bela mocidade.

In: Jornal O Imparcial, Salvador, 27 de julho de 1943, p.3.