Jacinta Passos

Cronologia

1914 Jacintha Velloso Passos nasce a 30 de novembro, na fazenda Campo Limpo, de propriedade do pai, município de Cruz das Almas, Recôncavo da Bahia. É a terceira filha de Berila Eloy e Manuel Caetano da Rocha Passos, membros de famílias tradicionais da região, muito católicas.

• Infância na fazenda.

1924 • Muda-se com os pais e os quatro irmãos – três meninas e um menino – para a cidade de São Felix, às margens do rio Paraguaçu, onde estuda as primeiras letras. O pai assume o cargo de Fiscal do imposto de consumo.
1926 • Muda-se com a família para a cidade de Salvador.
1927-1932 • Cursa a Escola Normal da Bahia, onde se forma com láurea. É ótima aluna. Muito católica, participa regularmente das atividades da paróquia de Nazaré. Tem experiências místicas. Escreve poemas, que circulam entre familiares e amigos.
Em 1927, o pai é eleito deputado estadual, mas perde o mandato em decorrência da Revolução de 1930.
1933-1938 • Trabalha como professora de matemática, escreve poemas, lê muito e, ao lado do irmão, Manoel Caetano Filho, participa de círculos e grupos literários de Salvador, como a Ala das Letras e das Artes (ALA). Continua bastante religiosa, mas, à medida que a década avança, sua religiosidade vai se caracterizando por forte conteúdo social e militante.

• Em 1934, o pai é eleito deputado estadual, ligado ao grupo político de Juracy Magalhães, mas em 1937 perde novamente o mandato, em decorrência do golpe militar que dá início à ditadura do Estado Novo.

1939-1941 • A partir da eclosão da II Guerra Mundial, em 1939, envolve-se fortemente com política. Assume posições públicas a favor da paz no mundo e do final da ditadura no Brasil. Participa de manifestações nas ruas de Salvador. Denuncia as opressões de que as mulheres são vítimas e defende mudanças na condição feminina.

• Publica artigos e poesias no jornal O Imparcial e na revista cultural Seiva, com temáticas sobretudo sociais. Compõe os primeiros poemas de amor.

1942 • Junto com o irmão, Manoel Caetano Filho, publica Nossos poemas (Salvador, A Editora Bahiana). Com um total de 144 páginas, o livro é subdividido em “Momentos de Poesia” (até a pg. 98), com 38 poemas de Jacinta, e “Mundo em Agonia”, com 22 de Manoel Caetano Filho. O volume é bem recebido pela crítica baiana, firmando o nome da poeta e de seu irmão no meio intelectual do Estado.
Participa intensamente da luta antinazista e antifascista, que se intensifica com a entrada do Brasil na guerra.
1943 • Combate o nazifascismo e o Estado Novo. Trabalha como voluntária na Legião Brasileira de Assistência (LBA). Defende transformações sociais profundas para o país, reivindica direitos para as mulheres e se torna amiga de intelectuais comunistas, como Jorge Amado, que, mais tarde, se tornará seu cunhado. É uma das poucas mulheres da Bahia a assumir posições políticas públicas e a desenvolver intensa atividade jornalística. Publica semanalmente artigos e poemas assinados e dirige uma “Página Feminina” em O Imparcial, jornal de Salvador dirigido por Wilson Lins. Abandona o catolicismo, afastando-se cada vez mais dos valores da sua família, à qual, contudo, permanece afetivamente ligada.
No final do ano, conhece o jornalista e escritor James Amado, com quem inicia romance.
1944 • Muda-se para a cidade de São Paulo, onde James vive. Os dois se casam em março. Torna-se amiga de artistas e intelectuais como Carlos Scliar, Clóvis Graciano, Ben Ami, José Geraldo Vieira e Lasar Segall. Participa da vida cultural e política da cidade. Comparece ou ajuda a organizar comícios, comitês, passeatas, manifestos, cada vez mais envolvida com os comunistas, a quem o marido também é ligado.
1945 • Publica Canção da Partida (São Paulo, Edições Gaveta), no primeiro semestre. Com 121 páginas, o livro reúne 18 poemas, 3 transcritos do livro anterior. A edição, muito bonita, é de 200 (duzentos) exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados por Lasar Segall, além de dez exemplares acompanhados de uma ponta-seca original de Segall. O livro recebe críticas elogiosas de Aníbal Machado, Antônio Cândido, Mário de Andrade e Sérgio Milliet, entre outros, firmando o nome da poeta no cenário nacional.

• Participa em São Paulo do 1º Congresso Brasileiro de Escritores, marco na campanha pela rápida volta do país à democracia.

• Em agosto, aos oito meses de gravidez, sofre aborto. Muda-se para Porto Alegre, com o marido. Nesta cidade, ambos se filiam oficialmente ao Partido Comunista Brasileiro, que acaba de ser legalizado. Envolve-se completamente na campanha pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte. Aproxima-se de intelectuais gaúchos, escreve textos e profere conferências.

• Por decisão do Partido Comunista, muda-se com James para Salvador, a fim de candidatar-se a cargo eletivo. Reencontro com a família. Torna-se a única mulher da Bahia candidata a deputada federal constituinte pelo PCB. Intensa participação política. Não se elege.

1946-1947 • Reside em Salvador. Escreve regularmente poesia e prosa. Em julho de 1946, a sede de O Momento, onde Jacinta colabora e James é secretário-geral, é invadida, e o jornal, empastelado. A situação política segue muito tensa durante este ano e o seguinte, quando o PCB tem o registro cassado e volta à ilegalidade.

• Em setembro de 1946, aos dois meses de uma gravidez de alto risco, é internada no hospital da Pro-Matre, de onde só sai sete meses depois, em abril do ano seguinte, após dar à luz a filha Janaína.

• No final do ano, é lançada candidata a deputada estadual constituinte pelo PCB. Internada no hospital, não faz campanha. Não se elege.

• O pai é eleito deputado estadual constituinte pela UDN, partido que, na Bahia, defende princípios opostos aos dos comunistas.

1948 • Comunistas são presos e perseguidos. A situação política é tensa. Muda-se no início do ano, com o marido e a filha, para uma fazenda na região do Pontal do Sul, município de Coaraci, zona cacaueira da Bahia, pertencente aos sogros. Convive com o marido, cuida da filha, lê muito e escreve poemas. Em abril, viagem ao Rio de Janeiro.
1949-1950 • Saídas eventuais da fazenda, onde continua residindo, para visitas a Salvador, ao Rio e a São Paulo, a fim de cumprir tarefas do PCB e rever familiares. Em 1950, participa do 3º Congresso Brasileiro de Escritores, em Salvador. Intensa produção poética.
1951 • Publica Poemas políticos (Rio de Janeiro, Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil). Com 87 páginas, o livro contém 10 poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção do livro anterior. O volume amplia o prestígio da autora, sobretudo entre os círculos literários de esquerda.

• Muda-se para o Rio de Janeiro, com o marido e a filha. Apesar da repressão ao PCB, que também radicaliza posições, trabalha no comitê de mulheres do partido, dá conferências, integra comissões e escreve textos de caráter político. Em julho, chefia a delegação carioca ao Congresso de Mulheres, organizado pelo PCB em S. Paulo, que é reprimido.

• Em novembro, após regressar do IV Congresso Brasileiro de Escritores em Porto Alegre, sofre no Rio grave crise nervosa, com delírios persecutórios. Internada em sanatório particular em Botafogo, é diagnosticada como portadora de esquizofrenia paranóide, então considerada uma doença progressiva e irrecuperável. Nessa internação e nas seguintes, é tratada à base de eletrochoques, injeções de insulina e barbitúricos.

1952 • Transferida para a Clínica Psiquiátrica Charcot, em São Paulo, onde é confirmado o diagnóstico de esquizofrenia paranóide. Jacinta e James separam-se.

• No final do ano deixa o Charcot. Passa a morar em São Paulo com a irmã e o cunhado. Trabalha na Editora Martins.

1953-1954 • Após período de relativo equilíbro, volta a ter crises. É de novo internada no Charcot. No sanatório escreve poemas, inclusive A Coluna, épico que depois publicará em livro.
1955-1956 • Muda-se para Salvador. Mora com os pais, no mesmo sobrado onde residira na juventude. Faz questão de levar existência independente da família. Milita no PCB, ensina em comunidades pobres de Salvador, lê e escreve com frequência, poesia como prosa.

• Publica artigos sobre literatura no jornal comunista O Momento, em 1956.

• Recebe, nos dois anos, visitas da filha, que passa com ela as férias escolares.

1957 • Publica A Coluna (Rio de Janeiro, A. Coelho Branco Fº Editor). Com 47 páginas, o livro contém o poema épico homônimo em 15 cantos, sobre a Coluna Prestes, apresentado como “uma parte do livro História do Brasil e outros poemas”.

• Sofre crises persecutórias. Dificuldades financeiras.

• No final do ano, viaja ao Rio de Janeiro, para visitar a filha. Passa com ela as férias escolares, preparando-a para o exame de admissão ao ginásio.

1958 • Detida no Rio, na Central do Brasil, por vender seu livro A Coluna, considerado subversivo. É solta no mesmo dia. Retorna a Salvador. Dessa época em diante, não convive mais com a filha.

• Sofre forte crise persecutória. É internada por familiares em sanatório de Salvador. Após sair, abandona a casa da família Passos, transferindo-se sozinha para a cidade de Petrolina, extremo-oeste de Pernambuco.

1959-1961 • Permanência em Petrolina, onde vive em extrema pobreza. É possível que trabalhe para o PCB, então em profunda crise, devido à saída de muitos de seus membros. Jacinta, contudo, permanece no partido até o final da vida.
1962-1964 • Muda-se para Aracaju, instalando-se em Barra dos Coqueiros, povoação em frente à cidade. Vive muito pobremente, em um barraco de madeira, à beira do rio Sergipe. Numa época de grande agitação e polarização política, desenvolve, sozinha ou com companheiros, intensa militância, inclusive após o golpe militar de 1964. Escreve à máquina, em geral à noite, textos e poesias de caráter político, que distribui pelas ruas. Discursa e picha palavras de ordem nos muros da cidade.
1965-1973 • Detida duas vezes em 1965, é submetida a interrogatórios e recolhida ao 28º BC de Aracaju, e, daí, recolhida ao sanatório público Adauto Botelho, em Aracaju, até ser transferida, graças à interferência da família Passos, para a Casa de Saúde Santa Maria, sanatório particular da cidade. Aí permanece até morrer.
Escreve regularmente, compondo à mão poemas, peças para teatro (adulto e infantil) e radioteatro, aforismos, textos sobre teoria da arte, poesias e reflexões políticas.

• Recebe visitas de familiares e da filha, mas afirma não reconhecer nenhum deles.

Morre a 28 de fevereiro de 1973, aos 57 de idade, vítima de derrame cerebral.

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1989 • Publicado, na revista Exu (Salvador, Fundação Casa Jorge Amado, nº 7, janeiro/fevereiro, p. 28-35), trecho do ensaio “Entre Lirismo e Ideologia”, de autoria do poeta e crítico José Paulo Paes, sobre a trajetória e a obra de Jacinta.
1990 • Segunda edição de Canção da partida (Salvador, Fundação das Artes), 77 páginas, que contém o texto completo do ensaio Entre Lirismo e Ideologia, de José Paulo Paes, escrito especialmente para essa edição.
1998 • CD O Prazer da Poesia na voz de José Mindlin (São Paulo, Gravadora Eldorado), com poemas selecionados e interpretados pelo bibliófilo José Mindlin. Incluído o poema de Jacinta “Cantiga das mães”.
1999 • Livro A poesia baiana no século XX – Antologia (Salvador/Rio de Janeiro, Fundação Cultural do Estado da Bahia/Imago Editora), organização, introdução e notas de Assis Brasil. Contém os poemas de Jacinta “Canção da liberdade”, “Estrela do oriente” e “Canção da alegria”, antecedidos de biografia e breve apreciação crítica de sua obra.
2000 • Livro A história esquecida de Jacinta Passos, de Dalila Machado (Salvador, Secretaria de Cultura e Turismo/ Fundação Cultural do Estado/ Empresa Gráfica da Bahia, com fotos e anexos), primeira biografia da poeta.

• Lançado o site Escritoras baianas, com breve bio-bibliografia, foto e comentário crítico sobre a obra de Jacinta.

2001 • Antologia Poetas da Bahia – Século XVII ao século XX (Salvador/ Rio de Janeiro, Fundação Cultural do Estado da Bahia/ Imago Editora), organização de Ildásio Tavares e notas bio-bibliográficas de Simone Lopes Pontes Tavares. Inclui nota bio-bibliográfica e poemas de Jacinta.
2002 • Livro Retratos à margem: antologia de escritoras das Alagoas e Bahia (1900-1950) (Maceió, Edufal), organização de Izabel Brandão e Ivia Alves. Contém breve bio-bibliografia, foto e comentário crítico sobre a obra de Jacinta.
2003 • Vídeo Mídia Poesia, coordenação de Oscar Dourado e realização de Da Rin Produções, Salvador. Incluído o poema de Jacinta “Canção da Partida”. Segunda edição, ampliada, em 2005.

• Seminário Políticas Públicas para as Mulheres, pelo Coletivo de Mulheres em Luta Jacinta Passos, ligado ao Partido dos Trabalhadores, em Cruz das Almas, Bahia.

• Publicação de foto, minibiografia e poema “Campo-Limpo”, de Jacinta Passos, in: Reflexos do Universo. Cruz das Almas, Bahia, nº 71.

• Palestra Jacinta Passos: Canção Atual, de Janaína Amado, Fundação Pedro Calmon, Palácio Rio Branco, Salvador, Bahia.

2007 Livro Jacinta Passos: a Busca da Poesia (Aracaju: Edições GFS, Coleção Base 2, 2007), de Gilfrancisco, totalmente dedicado à poeta, jornalista e política.
2008 • Livro Salvador 460 Anos de Poesia (Salvador: Fundação Omnira), organização de Roberto Leal, contém poema de Jacinta.

• Monografia de Especialização Passagem de Jacinta Passos pelo Jornal “O Imparcial” (1943), de Danielle Spinola Fuad, Salvador, Centro Universitário Jorge Amado, área de Jornalismo Contemporâneo. Orientação: Prof. Dr. Luís Guilherme Pontes Tavares.

2009 • Agenda Brasil – retratos poéticos (S. Paulo: Editora Escrituras), de Raimundo Gadelha, Mauricio Simonetti, Rogério Reis e José Inácio Vieira de Melo. Inclui fragmentos de poemas de Jacinta.
2010 • Livro Jacinta Passos, coração militante, organização de Janaína Amado (Salvador: Editora Corrupio e Editora da Universidade Federal da Bahia). Contém a obra completa em verso e prosa de Jacinta, sua biografia e fortuna crítica.

Site oficial de Jacinta Passos, com diversas informações e imagens. Dentro do site, um blog atualiza as notícias e traz as diversas resenhas e críticas sobre a trajetória e a obra de Jacinta Passos, que têm se multiplicado na imprensa e na mídia desde a publicação do livro.

Cronologia organizada por Janaína Amado