Jacinta Passos

Críticas

Entre lirismo e ideologia (1)

José Paulo Paes (2)

Canção da Partida foi publicado em 1945. Nos anos imediatamente anteriores, sua autora estivera ligada, na Bahia, a movimentos populares encabeçados por grupos de esquerda, o que deixou a sua marca em Momentos de Poesia (3). Não nos versos de inquietação religiosa escritos entre 1937 e 1940, mas naqueles dos dois anos seguintes, em que à inquietação religiosa se vem somar a humanitária. Quando saiu a Canção da Partida, Jacinta estava recém-casada com o escritor James Amado, militante do PCB, partido então na ilegalidade e a que ela se filiou em fins de 1945. Mas nem seria preciso recorrer a dados de ordem biográfica para explicar a preocupação participante dos poemas da Canção da Partida. Eles eram, nisto, o espelho da consciência eminentemente social de uma época a que a resistência antifascista e as agruras da guerra haviam ensinado o sentido prático dos versos de John Donne acerca de que “homem nenhum é uma ilha, completa em si; cada homem é uma parte do continente, uma parte do todo”.

É o generalizado sentimento de solidariedade dessa época, o seu sonho de um mundo só, tão depressa desmentido pela realidade de pós-guerra, que se reflete na Canção da Partida. Isso não quer dizer estejam dele ausentes certos exclusivismos de partido. […]

Os vícios técnicos da demagogia em que, no arrebatamento místico de sua adolescência, incorreu mais de uma vez a poetisa de Momentos de Poesia, estão felizmente ausentes da Canção da Partida. Se aqui se faz sentir ainda um certo ar profético, ao que parece substancial à poesia politicamente idealista, bem como um certo pendor pelas invocações, estas de índole mais afetiva que oratória, um e outras nada têm a ver com qualquer piedade vicentina, originando-se antes de um sentimento de fraternidade que, não sendo exatamente “duro”, adjetivo aliás incompatível com a sensibilidade feminina, é sem dúvida verdadeiro, desde que se dê a este segundo adjetivo, como cumpre em se tratando de arte literária, a acepção de convincente. Tenho pra mim que o poder de convencimento dos 18 poemas enfeixados na Canção da Partida advém sobretudo do seu timbre inconfundivelmente lírico, a que não falta de vez em quando, por amor da variedade, uma nota de sátira.

Ao fazer-se uso de um conceito tão fluído quanto o de lirismo, convém ter em mente, com Hegel, que “o conteúdo de um poema lírico é (…) a maneira como a alma, com os seus juízes subjetivos, alegrias e admirações, dores e sensações, toma consciência de si mesma no âmago desse conteúdo” (4). Foi essa lírica tomada de consciência de si no próprio ato de exprimir-se que salvou Jacinta Passos do escolho das generalizações retóricas em que, por equivocadamente fiéis às abstrações de uma ideologia, naufragaram outros poetas, como ela animados – para repetir as palavras com que Roger Bastide saudou a Canção da Partida – do mesmo “sentimento da miséria dos homens, da solidariedade no sofrimento”, do mesmo ideal de “um mundo mais justo e mais fraterno”. Em vez de simplesmente tentar pôr em verso as palavras de ordem de uma doutrina política impessoal, cuidou ela de interrogar-se acerca das raízes do seu sentimento do mundo. Tal anamnese, de par com a matéria vincadamente pessoal do seu canto, que Aníbal Machado disse bem ir “da ternura mais íntima ao grito largo de libertação”, deitando assim por terra a falsa barreira entre o individual e o coletivo, lhe daria, de quebra, o instrumento lingüístico mais adequado para exprimi-la, qual seja a singeleza folclórica das cantigas de roda e de trabalho. […]

O ferrete da condição feminina, de que já encontramos vislumbres críticos na “Canção simples” e na “Canção das mães”, é alusivamente referido nesta passagem onde o cediço símile da “canção do exílio” serve para ironizar a liberdade vigiada da mulher dentro dos limites do estereótipo em que a encarcera o desejo masculino:

Menina, minha menina,
carocinho de araçá,
cante
estude
reze
case
faça esporte e até discurso
faça tudo o que quiser
menina!
não esqueça que é mulher.

Minha terra tem gaiola
onde canta o sabiá.

Mesmo na série “Três canções de amor”, de notável limpidez e despojamento de expressão, o abandono amoroso não exclui uma consciência crítica diferenciadamente feminina. A primeira canção, que desenvolve uma parlenda infantil, Eu fui por um caminho./ Eu também./ Encontrei um passarinho./ Eu também, aponta no amor menos a segurança matrimonial do ninho que os riscos de uma aventura a dois, um vai-e-vem sujeito, como tudo, a mudanças e rupturas: Podes virar um passarinho./ Eu também. Na segunda canção, motivos de contos de fadas configuram o amor como gruta sombria em cujo recesso se embosca a vontade proprietária do homem:

Nunca se fie no seu sono,
sono de El-rei, meu senhor.
Não queiras nunca ser dono,
negro!
Ah! negro do meu amor.

Em “Chiquinha”, o tema da sujeição feminina se historiciza num desfile de séculos e o corpo-mercadoria da mulher vai assumindo seus diferentes avatares: escrava do Egito, prostituta da Mesopotâmia, pária da Índia, odalisca da Arábia, matrona-serva de Roma, mistério e tabu do Medievo, ventre paridor de escravos na aurora dos tempos modernos, operária da era da máquina – a mesma máquina que, ao por abaixo as fronteiras / do lar, doce lar/ – prisão milenar, trás afinal ao corpo,/ cansado,/ explorado dessa obstinada metamórfica Chiquinha uma esperança de libertação.

É bem de ver que o sentimento libertário difuso por toda a Canção da Partida ecoa menos as teses de uma ideologia ou as palavras de ordem de um partido que a voz de uma sensibilidade a fazer-se consciência no próprio ato de se enunciar por via da indissolúvel unidade de vivência e expressão característica do lirismo. O timbre inconfundivelmente feminino dessa voz, ao mesmo tempo que lhe garante a autenticidade, a singulariza no quadro da nossa poesia participante ou engajada. E dentro da mesma ordem de idéias, impõe-se ainda lembrar a componente maternal dessa feminilidade, que já apontava nos Momentos de Poesia. Ela vai avultar na Canção da Partida, quando mais não fosse pela ênfase ali dada ao mundo da criança, mundo do qual, por força da tarefa a ela confiada pela maternidade, de ter de acompanhar passo a passo os primeiros anos de vida dos filhos, a mulher está muito mais próxima do que o homem. A ternura de que a infância é o objeto na Canção da Partida não fica restrita à esfera do individual. Tanto quanto a feminilidade de que provém, reveste-se de implicações sociais, mesmo nos momentos em que menos seriam de esperar, como na “Cantiga de ninar”, onde a refrões e motivos de nanas brasileiras tradicionais vem-se juntar um novo ingrediente utópico-político:

Senhora Onda do Mar
vestida de verde com franjas de luar.
ninai meu filhinho fechai seu olhinho
seu soninho velai
que mamãe precisa fazer com papai
Senhora Onda do Mar,
um planeta novo para neném morar.

(1) Texto escrito especialmente para a segunda edição de Canção da partida: PASSOS, Jacinta. Canção da Partida. (Salvador: Fundação das Artes, 1990, p. 9-28. Do profundo estudo original de José Paulo Paes, foram escolhidos alguns trechos, para esta edição do “Cultural”.
(2) O paulista José Paulo Paes (1926-1998) foi um dos mais respeitados poetas, críticos literários e tradutores do país na segunda metade do século XX.
(3) O autor refere-se ao primeiro livro de Jacinta Passos, publicado em Salvador, em 1942. A próxima nota é do texto original de José Paulo Paes.
(4) Apud Massaud Moisés, Dicionário de Termos Literários. S. Paulo, Cultrix, 1974, p. 309.


O poeta e a poetisa (1)

Antonio Candido (2)

Bem diferente é Canção da partida, da sra. Jacinta Passos (S. Paulo, Edições Gaveta, 1945). A jovem poetisa baiana passa de uma concepção totalmente diversa da de seu colega pernambucano. Os ritmos populares, a melodia elementar e o canto de esperança formam a matéria de seu livro. Em vez de criar um mundo à margem do nosso, a sra. Jacinta Passos mergulha de alma e corpo nos ritmos e nas realidades que a vida oferece. Do ponto de vista plástico o mundo lhe basta tal qual é; a sua sensibilidade esposa ardentemente as formas da vida e encontra nelas um deleite sem maiores exigências. O seu desejo de transformação é menos estético do que social, por isso em vez de se deter no estudo das formas como o sr. João Cabral, procura sempre o conteúdo humano das experiências. Canta recordações, lembra cenas e fatos, dá expansão aos sentimentos, se exalta nas profecias e no desejo de transformar a vida:

Levantai-vos, párias de todo o mundo!
Não vedes? Ela vem vindo, a Estrela do Oriente,
alta, bela, imponente, os pés plantados no chão,
traz o fogo no olhar e uma foice na mão.

Este tom solene e meio profético me faz lembrar as poesias da primeira fase da sra. Jacinta Passos, de que ela guardou a austeridade formal e a elevação de tom. Prefiro-a, todavia, nos poemas de metro curto, onde revela uma imaginação mais fresca e um encantamento rítmico cheio de seiva folclórica.

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Peneira massa peneira,
peneira peneiradinha,
(Ai! vida tão peneirada)
peneira nossa farinha.

Para a sra. Jacinta Passos o mundo do exterior e a vida existem com uma soberania à qual não há fugir. Daí o seu apego às recordações, ao som das palavras, aos ritmos de movimento, à associação das imagens visuais e auditivas. Não se pense, todavia, que a sua poesia seja barulhenta e colorida. Há nela zonas de silêncio e de ternura, a fazerem contraponto com a relativa exuberância da maioria dos poemas. Todavia, o tom normal dos versos é a exaltação e o movimento – imagens que se sucedem em borbotão, visões ampliadas da realidade. Mesmo nos poemas de amor há entusiasmo e ruído:

Somos amantes
queremos amar!

Hurra!

Se o adjetivo não fosse tão vulgar, eu diria que Canção da Partida nos revela uma poesia dinâmica. Os seus versos estão sempre se deslocando em planos diversos; vertigem de ritmos, desejo de mudança social, projeção no futuro, volta ao passado. Lendo-os, sentimo-nos envolvidos por uma atmosfera viva e opulenta, criada pela sensibilidadede uma poetisa cujos pés se fincam resolutamente na realidade experimentada. Este senso de apego às coisas e às pessoas talvez seja responsável pelos defeitos do livro, ou seja uma certa vulgaridade discursiva, um sentimentalismo por vezes fácil demais e, não raro, uma demagogia que a autora não sabe evitar. Mas, por outro lado, é também a ele que devemos a sugestão dos bons poemas, que formam a grande maioria do livro. Poemas como o admirável “Canção da partida”, que abre o livro, ou “Canção simples”, que o encerra. Penso que a sra. Jacinta Passos se firmou com este livro numa posição de primeira plana na moderna poesia brasileira.

(1) Publicado originalmente no jornal “Diário de São Paulo”, 13 de dezembro de 1945. O artigo tem esse título porque sua primeira parte, aqui suprimida, analisa o livro O Engenheiro, de João Cabral de Mello Neto.
(2) Antônio Candido de Mello e Souza é um dos mais respeitados estudiosos e críticos de literatura do país. Este texto faz parte das críticas literárias que, desde 1940, publica imprensa brasileira, sobre os autores e livros que lhe chamaram a atenção.